Na terra do terrorismo, todo ataque é santo. Na terra santa, todo ataque é terrorista

Quando visitamos uma família ou encontramos um contato local pela primeira vez, uma das perguntas recorrentes é: “O que você está achando da Palestina?”. Depois de falarmos nossa opinião sobre as pessoas e o conflito, um comentário sempre emerge: “Por favor, diga para o mundo que não somos terroristas”.

Há algumas semanas, quando visitávamos a escola em Jaloud que havia sido atacada por colonos, conversei um pouco com o diretor e descobri que ele morava em Awarta. A vila, como já postei aqui, é constantemente atacada por colonos do assentamento de Itamar. Em 2011, porém, dois jovens de Awarta assassinaram cinco membros de uma família judia que morava no assentamento, dentre eles três crianças. A Autoridade Palestina condenou o ataque. Em resposta, o gabinete ministerial de Israel aprovou a expansão de quatro assentamentos na Cisjordânia. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse à época: “Eles atiram e nós construímos”.

Perguntei ao diretor o que o povo de Awarta achava daquele ato violento, ao que ele respondeu que alguns os tinham como heróis, enquanto outros repudiavam aquilo. Quando perguntei o que ele achava, respondeu: “Nem heróis, nem criminosos”.

Fiquei surpreso com a resposta e pensei comigo: apesar dos pesares, não se pode em hipótese alguma suportar uma ação violenta como essa.

Há uma semana visitei a cidade de Hebron, a segunda maior da Cisjordânia, através do tour promovido pela organização de soldados e ex-soldados israelenses “Breaking the Silence”. Em árabe a cidade é chamada de Al-Khalil, que significa “amigo”. Hebron é a segunda cidade mais sagrada para o judaísmo e também é sagrada para muçulmanos, uma vez que contém a Tumba dos Patriarcas e Matriarcas, os quais originaram ambas as religiões.

A cidade é também a única que possui assentamentos israelenses em sua área urbana. Cerca de 450 colonos vivem em Hebron, protegidos por cerca de 700 soldados designados para tal. O antigo centro, a rua Shuhada, hoje é uma cidade fantasma. O exército israelense determinou o fechamento das lojas da rua durante a segunda intifada e, durante anos, nenhum palestino podia transitar em sua extensão. Os moradores que possuem casas na rua Shuhada tiveram que abrir saídas pelos tetos de suas residências. Após anos de litígio na Suprema Corte Israelense, o exército reconheceu que havia fechado a rua “por engano” e que os palestinos poderiam transitar. Hoje, caso um palestino ande na rua Shuhada, ele será preso, a despeito da decisão judicial.

 

Rua Shuhada

 

Além dos assentamentos dentro da cidade, Hebron é cercada pelo assentamento de Kiryat Arba, o qual visitei no tour. Em 1994, o colono Baruch Goldstein adentrou a mesquita localizada na Tumba dos Patriarcas e Matriarcas e abriu fogo durante a oração. A ação deixou 29 palestinos mortos e mais de 100 feridos. Em seguida, Goldstein foi morto pelos sobreviventes após sua arma travar. O assentamento de Kiryat Arba enterrou o atirador em uma praça e um monumento em sua homenagem foi erguido.

A praça Kehane foi assim denominada em homenagem ao fundador do Kach, Meir Kehane. O Kach é um partido de extrema direita israelense banido do parlamento israelense em virtude de seus membros serem considerados terroristas. O santuário de Goldstein foi demolido pelo exército israelense após uma lei ser aprovada determinando que nenhum monumento público poderia ser erguido enaltecendo terroristas.

O túmulo de Goldstein, porém, ainda jaz na praça Kehane e os seguintes dizeres podem ser lidos em hebraico:

“O venerado Dr. Baruch Kapel Goldstein, filho de Israel. Ele deu sua alma para o bem do povo de Israel, pela Torá e pela Terra. Suas mãos estão limpas e seu coração é bom. Ele foi assassinado para a Santidade de Deus.”

 

Túmulo de Goldstein

 

Para quem vive na terra ocupada, a diferença entre herói, mártir, terrorista ou criminoso é essencialmente referencial, depende somente de quem vê. Para o mundo, a diferença dependerá de quem conta a história.

O que é terrorismo?

Na terra do terrorismo, todo ataque é santo. Na terra santa, todo ataque é terrorista.

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Foi isso o que pude fazer

Em meados do século passado George Orwell já previa que o “Grande Irmão” dominaria nossas vidas por completo. Em seu livro “1984”, o autor narra a história de um país fictício controlado por uma matrix governamental que decide desde a roupa que você usará até que tipo de informação você poderá obter da mídia. O controle é justificado pela constante ameaça externa de um inimigo que nunca se viu.

Os que são controlados raramente se dão conta de tal. No contexto da ocupação, a consciência do povo israelense sobre o que está acontecendo é assombrosamente próxima de zero. Mas, para toda regra há uma exceção.

Na última sexta-feira, dia 11/10, voltamos à Mak-hul para ajudar a construir abrigos para os animais e algumas tendas. Vários ativistas israelenses, principalmente da organização Machsom Watch, vieram à comunidade para entregar material e oferecer ajuda.

Mak-Hul

A maioria era de idade avançada. Em uma das conversas, indaguei a uma das senhoras qual a punição para um israelense que entra em uma zona de Área A, controlada pela Autoridade Palestina segundo os Acordos de Oslo. A entrada de cidadãos israelenses nessas áreas é proibida por lei (israelense).

A senhora disse que vários ativistas de seu grupo já foram detidos por estarem em zonas palestinas. Ela mesma já fora detida. Após o ocorrido, resolveu procurar a administração israelense responsável pela ocupação e, lá mesmo, foi obrigada a assinar um documento assumindo toda a responsabilidade de frequentar áreas “perigosas”.

Para seus cidadãos, o Estado israelense justifica as medidas como necessárias para garantia da segurança. Para os palestinos, os ativistas são sempre bem-vindos.

Dentre os israelenses em Mak-Hul, estava o senhor Yehoshua Rosin, agora com 70 anos, que desde cedo decidiu opor-se à ocupação e as decisões de seu governo. O senhor Yehoshua pediu que enviasse as fotos que havia tirado no dia por e-mail para ele. Copio aqui a resposta desse senhor ao meu e-mail:

“Caro Rafael (em hebraico o arcanjo Rafael significa a cura de Deus),

Muito obrigado pelas fotos. No passado eu costumava tirar fotos eu mesmo. Eu sou um pensador livre, mas usarei uma metáfora religiosa. De acordo com a religião judaica, quando um judeu morre ele será julgado perante Deus. Caso inocente, ele irá para o paraíso (jardim do Éden), mas caso tenha pecado e não se arrependa, será condenado ao inferno. Então, pensei em levar fotos para o túmulo comigo e quando perguntado ‘O que você fez, de modo que os outros possam viver em paz e você desfrute do paraíso?’, eu mostraria as fotos e diria ‘Foi isso o que eu pude fazer’. Muito obrigado e lembranças a seu grupo pela sua contribuição.  Yehoshua Rosin.”

Israeli activist

Foi triste perceber que a maior parte dos israelenses presentes era de idade avançada. Parece que a nova geração não está ouvindo suficientemente os que têm experiência. Mas, assim como o senhor Yehoshua e a senhora que conversei, não posso me render ao “Grande Irmão”. Simplesmente vai contra minha natureza. Faço minha parte: registro o que vejo e conto a quem posso. Afinal, “foi isso o que pude fazer”.

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Para além do muro

O EAPPI possui como um de seus princípios básicos a imparcialidade. Neste sentido, procura desencorajar condutas que venham a demonstrar favorecimento a qualquer dos lados envolvidos no conflito.

Assim como o Juiz de Direito, nós não podemos, entretanto, ser neutros ao que acontece diante de nós. Portanto, não devemos nos fechar às influências subjetivas e ideológicas para formar nosso julgamento de valor diante das violações de direitos humanos que testemunhamos.

Em suma, precisamos ter em mente que é necessário ouvir os dois lados, ponderar suas posições, presenciar suas ações, relatar o que testemunhamos e, a partir daí, elaborar um juízo de valor baseando nossos argumentos no Direito Internacional aplicável.

Nesta última semana participamos da orientação que marca a metade de nossa estadia aqui em Israel e na Palestina. Do dia 30/09 ao dia 05/10 visitamos diversas pessoas e organizações israelenses que possuem opiniões variadas sobre o conflito. A oportunidade oferecida é imprescindível para que possamos ouvir ambos os lados e formar nosso julgamento de valor.

Nossa primeira visita foi a Efrat, um assentamento israelense construído além dos limites do armistício de 1967 (Green Line), fronteira internacionalmente reconhecida como delimitação entre Israel e o Território Palestino Ocupado. Fomos recebidos por Bob Lang, um colono que mora na região há aproximadamente quarenta anos. Logo ao iniciar sua exposição, Bob afirmou que as regiões da Judeia e Samaria (nomes bíblicos adotados por Israel para a região da Cisjordânia) eram parte da história do povo judeu e deveriam pertencer a Israel.

Bob é contra a construção do muro de divisão, mas justifica dizendo que esta não pode ser a fronteira do Estado de Israel. Bob nega a ocupação e afirma que a Convenção de Genebra Relativa à Proteção de Pessoas Civis em Tempos de Guerra (Quarta Convenção de Genebra) não é aplicável, pois a Palestina nunca foi um território soberano. Quando perguntado se concordaria na solução de um Estado, absorvendo a população palestina, Bob disse que era contra, mas enfatizou que Israel era uma nação democrática. Bob é contra a violência de ambos os lados, mas diz que Gaza é livre. Quando perguntado sobre o bloqueio terrestre que Israel exerce em Gaza, Bob disse que todo país pode controlar suas fronteiras. Quando perguntado sobre o bloqueio naval que Israel exerce em Gaza, Bob disse: “Vá lá e veja os mísseis sendo lançados todos os dias!”. Mas para entrar lá eu preciso de autorização do governo de Israel, Bob. “Entre pelos túneis do Egito! Em Gaza não há um soldado ou civil israelense. Gaza é livre!”.

Coincidência ou não, nossa próxima parada foi Sderot, a cidade israelense mais próxima da fronteira com Gaza. Lá conversamos com Nomika Zion, membro da organização Other Voice, que luta para uma solução pacífica e humana do conflito. O povo de Sderot vive no medo constante. Durante os momentos de maior tensão, a cidade chegou a receber de 50 a 60 mísseis por dia, tanto do Hamas quanto de outras organizações em Gaza. A maior parte das construções em Sderot possui quartos especiais revestidos de concreto e à prova de mísseis. As paradas de ônibus da cidade são abrigos contra os ataques, projetadas para resistir aos impactos das explosões. Segundo nos contou Nomika, a maior parte da população adulta de Sderot sofre de transtornos psicológicos devido à constante tensão a que é submetida.

Gaza from Sderot view

Apesar de todo o cenário, a israelense reconhece que está em melhor situação que seus vizinhos em Gaza. Segundo as palavras de Nomika, sua organização se recusa a chamar a população de Gaza de inimiga, assim como acredita que esse ciclo interminável de guerras e vinganças não levará a nada. A ativista ressaltou que a sociedade israelense é extremamente militarizada e vive constantemente em estado de guerra, pulando de um conflito para outro. Ela acredita que o povo israelense perdeu a capacidade de ver os palestinos como seres humanos.

“Ao longo dos anos perdemos a habilidade de ter empatia pelo outro lado. Nós perdemos um pedaço de nossa humanidade”. (Nomika Zion)

A organização da qual faz parte, Other Voice, procura tornar o invisível visível. Através de reuniões periódicas, ela e seu grupo entram em contato com pessoas em Gaza, seja por telefone ou por e-mail, e compartilham um pouco de suas histórias.

Encontrar com Nomika acendeu uma fagulha de esperança nesse cenário de pessimismo acerca do futuro da região. Apesar de vivenciar uma realidade desoladora, Nomika não perdeu sua capacidade crítica e, o mais impressionante, não perdeu a habilidade de se por no lugar do outro. Além de tudo, pôs-se contra seus iguais, inclusive sofrendo ameaças, em nome do que acredita ser certo e justo.

A ativista escreveu um relato impressionante (War Diaries from Sderot) durante a invasão à Gaza por parte de Israel, em 2008. Vale a pena ler e compreender um pouco de sua opinião sobre a situação.

O último encontro que gostaria de destacar dessa semana foi o jantar de shabat com uma família judia da comunidade de Kahilat Yedidya, nas redondezas de Jerusalém. O shabat é dia sagrado para os judeus e inicia-se ao por do sol da sexta, findando ao por do sol do sábado. Nesse dia da semana, segundo as tradições judaicas e cristãs, Deus descansou após criar o mundo.

Jantamos com a família de Linda, uma jornalista que trabalha como correspondente do Oriente Médio em um jornal americano. Mais uma vez, fiquei surpreso e feliz com o que vi e ouvi. Inicialmente, estava receoso de conversar sobre a ocupação, uma vez que não sabia como seria interpretado, mas ao mesmo tempo queria compartilhar o que vi e vivi durante esse período na Cisjordânia. Ao final, fui eu quem aprendeu ainda mais sobre a situação, podendo ver o ponto de vista daquela pequena família.

De fato, Linda já havia ido à Cisjordânia diversas vezes e estava bem informada sobre o que acontecia. A família era contra a política governamental de assentamentos, pois segundo eles os subsídios volumosos oferecidos pelo governo de Israel prejudicavam a economia do país.

Quando falávamos sobre a violência perpetrada pelas forças de ocupação, um de seus filhos levantou-se e disse: “Mas mãe, acho que nós damos bastante liberdade aos palestinos. Nós imploramos para dividir a mesma terra com eles, mas eles quiseram guerra”. Seu irmão mais novo concordou com o comentário. O pai, aparentemente infeliz com o que ouvia, retrucou: “Meu filho, a situação é mais complexa que isso. Não foi bem assim que as coisas aconteceram. Eu e você podemos ir à Tel Aviv ou à Cisjordânia sem problemas, mas eles não tem essa liberdade. Não é porque ganhamos a guerra que devemos massacrar os vencidos. Onde você anda ouvindo isso, é na escola!?”.

Após mais algumas lições de história, terminamos o jantar com um brinde à humanidade e ao tratamento de todos com dignidade.

A experiência em Israel me devolveu um pouco da esperança que havia perdido durante minha vivência em Yanoun. A experiência em Israel me mostrou que, apesar da banalização do mal ser institucionalizada como política de Estado, existem outras vozes que gritam contra o coro diário de mentiras.

Espero que essas vozes possam se fazer cada vez mais ouvidas. Espero que essas vozes possam expor o que acontece na ocupação. Espero que essas vozes mostrem que não há muro ou checkpoint que possa fazê-las calar.

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Direitos humanos: só para humanos direitos

A comunidade de Mal-Hul, no Vale do Jordão, Palestina, foi demolida em 16 de setembro, afetando pelo menos 12 famílias. Em 20 de setembro, várias organizações articularam-se para tentar entregar abrigos e tendas na vila, através da Agência para a Cooperação e Desenvolvimento Técnico (ACTED). Outras organizações envolvidas: Machson Watch, EAPPI, Diakonia, Consulado Francês, Consulado Sueco, representante da Embaixada do Brasil, Tubas Governotare, dentre vários profissionais da imprensa e outras autoridades.

Quando chegamos em Mal-Hul, o oficial do exército israelense não permitiu que os moradores e internacionais descarregassem o material do caminhão e foi-nos dito que o Diretor de Administração Civil chegaria em breve. Depois de uma hora e meia de espera, período no qual 08 jipes do exército vieram ao local, o Diretor chegou. Os internacionais e os moradores tentaram negociar. Primeiro, tentou-se a entrega do material e instalação dos abrigos. Já que o exército negou os abrigos humanitários, o grupo tentou negociar a retirada do caminhão da área, sem confisco.

A diplomata francesa entrou no caminhão e recusou o confisco.

O exército tomou o caminhão à força. Alguns confrontos aconteceram entre os moradores e o exército. Os soldados agarraram a representante francesa e expulsaram os palestinos do veículo (6:00 minutos de vídeo). Depois, lançaram 03 bombas de efeito moral para dispersar a multidão e deslocaram o caminhão da vila.

Para além da óbvia desproporcionalidade da ação do exército, desrespeitando qualquer provisão de direitos humanos e direito humanitário, Israel violou a Convenção de Viena sobre Relações Consulares, de 1967, que determina:

“ARTIGO 41º

Inviolabilidade pessoal dos funcionário consulares

1. Os funcionários consulares não poderão ser detidos ou presos preventivamente, exceto em caso de crime grave e em decorrência de decisão de autoridade judiciária competente.

2. Exceto no caso previsto no parágrafo 1 do presente artigo, os funcionários consulares não podem ser presos nem submetidos a qualquer outra forma de limitação de sua liberdade pessoal, senão em decorrência de sentença judiciária definitiva.

[…]”

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Na Idade da Pedra

No solo pedregoso da região de Israel e da Palestina, a cultura de lançar pedras é um dos aspectos mais conhecidos da ocupação, tido como o principal meio de resistência e violência por parte dos palestinos. Para quem está distante da realidade local, é difícil compreender o aspecto político e histórico desse ato.

Para além da óbvia violência, lançar pedras significa, desde os tempos bíblicos remotos, um ato de punição ou desprezo. No cenário da ocupação, diante do aparato imensamente superior do poder ocupante, lançar pedras tornou-se, além de um ato de violência, um símbolo, a meu ver, não muito louvável da resistência palestina.

Os rótulos, porém, nem sempre descrevem com exatidão o conteúdo de seus frascos. Para além das armas, checkpoints, terras confiscadas, árvores queimadas e violências cometidas, o poder ocupante também joga pedras.

No último sábado, dia sagrado do Yom Kippur para o povo judeu, oferecemos presença protetiva a um agricultor palestino na colheita de suas amêndoas, cujas árvores situam-se na Área C, muito próximas ao assentamento de Bracha. Eu e mais duas colegas de time, além de dois voluntários do International Solidarity Movement (ISM), acompanhamos o senhor em sua jornada.

O dia do Yom Kippur é uma das datas mais importantes para os judeus. Segundo a tradição, finaliza o período pelo qual o homem deve pedir perdão por seus pecados e, por isso, é conhecido como dia do perdão. No feriado, o povo judeu também realiza jejum, para lembrar que a alma deve preceder o corpo. É um dia de reconciliação do homem com Deus e consigo mesmo. Na Cisjordânia, é quando a violência aumenta.

Ao chegarmos às amendoeiras, vimos dois adultos e uma criança, todos colonos, descendo a estrada do assentamento. A partir daí tudo se passou muito rápido. Reparamos que um quarto colono havia subido o morro e caminhava em nossa direção. O agricultor pediu que voltássemos, para evitar problemas. Começamos a caminhar e, de repente, vimos que um grupo de oito a dez colonos, todos vestidos de branco, com kippah e peiot, corriam em nossa direção.

A primeira pedra aterrissou longe. Começamos a correr de volta à vila em meio aos gritos dos colonos, enquanto que o agricultor, que andava com auxílio de uma bengala, lutava para manter o ritmo da fuga.

 

 

Conseguimos todos voltar em segurança. Observamos de longe o morro onde as amendoeiras estavam localizadas ser ocupado por colonos e, entre eles, cinco crianças. Após cerca de dez minutos, o exército israelense chegou ao local e ficou ao lado dos colonos, à sombra das amendoeiras.

 

Settlers and army

 

Com o passar do tempo, os colonos voltaram ao assentamento e o exército voltou ao jeep. O agricultor recebeu uma ligação daqueles mesmos soldados dizendo que agora era seguro para ele retornar à suas árvores.

Descemos o morro até a estrada para dialogar com os soldados. A resposta que recebemos não surpreendeu. As Forças de Defesa Israelenses (como é chamado o exército) não possuem competência para prender ou restringir direitos de cidadãos israelenses. Mesmo tendo ciência de que fomos atacados, os soldados disseram que não era nada demais e que, se quiséssemos alguma atitude, deveríamos fazer uma denúncia na delegacia de polícia.

Onde fica a delegacia de polícia mais próxima? No maior assentamento israelense na Cisjordânia: Ariel.

O agricultor não queria mais voltar às suas amendoeiras, preocupado com nossa segurança. Indagamos se gostaria de fazer uma denúncia acerca do ocorrido, mas ele disse que, além de não poder entrar no assentamento, sabia que sofreria represálias se o fizesse.

Vive-se na Idade da Pedra aqui. O mais forte vence, o juiz é seu opressor, a polícia não está a seu alcance, o exército protege aqueles que violam a lei e esta, em si, é injusta.

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Dicionários ocupados

Aprendi há tempos que é importante que saibamos o exato significado de cada palavra. Se possível, é bom que procuremos sua origem. Apesar de simples, esse ensinamento é de extrema importância, principalmente quando consideramos que grandes conflitos emergem entre civilizações pela mera falha de comunicação ou divergências de interpretações.

A carga semântica que cada palavra carrega é fruto de uma evolução no idioma, que por sua vez é um elemento social e, portanto, não estático. Intrínseca à cultura, a linguagem falada e as palavras sofrem variações de acordo com o contexto social e são elementos aptos a demonstrar, dentre outras coisas, os valores daquela sociedade.

No contexto da ocupação, as palavras e a linguagem podem refletir as consequências nefastas do atual cenário.

Estávamos saindo de Yanoun para a visita semanal à Nablus, uma das maiores cidades da Cisjordânia, quando fomos avisados em Aqraba que havia um Flying Checkpoint na saída desta vila.

Os Flying Checkpoints são postos de checagem do exército israelense instalados de modo itinerante pela Cisjordânia. Em regra, um jeep bloqueia a rua, instala barreiras de metal para evitar o tráfego livre e para os veículos para conferência das identidades e, possivelmente, passaportes.

 

 

Tais estruturas somente são consideradas legais pelo Direito Internacional quando, no contexto da ocupação, vislumbra-se perigo iminente ou ameaça concreta à vida dos civis ou dos militares.

Apesar da excepcionalidade, na Palestina tornou-se um procedimento comum. Ainda assim, o contato com os soldados fortemente armados sempre causa intimidação, principalmente para um internacional trabalhando com direitos humanos.

Ao sermos parados, entregamos nossos passaportes e identidades para conferência. O militar, aparentando ser muito jovem, questionou meu colega qual era o país daquele passaporte, ao que ele respondeu que era a Suécia. Para nossa surpresa, o soldado pareceu irritado e respondeu: “Vocês são todos antissemitas, todos!”. Mantivemos a calma no momento, o soldado devolveu os passaportes, pediu que parássemos o veículo, desligássemos o motor e esperássemos.

Após cerca de 10-15 minutos, voltou com a identidade do motorista, Ghassan, e comentou: “Vão, chamem a CNN e as outras redes de TV que quiserem”. O soldado e Ghassan falaram algo em hebraico e saímos.

Com o acalmar dos ânimos, parei para refletir sobre aquela situação e o porquê de ser taxado de antissemita. O que havíamos feito para aquele jovem soldado que pudesse fazê-lo pensar dessa forma? O que é ser antissemita?

Originalmente, a palavra semita designa os povos descendentes de Sem, filho de Noé, segundo o relato bíblico. Atualmente o vocábulo faz referência a um conjunto linguístico de mesma origem, que inclui, vejam só, árabes e judeus. Busquei no dicionário e encontrei a seguinte definição:

 

Antissemita

s.m. s.f. adj.f e adj.m. Algo ou alguém contrário à raça semítica, aos semitas, especialmente, aos Judeus.
(Etm. ant(i) + semita)

 

A língua também é uma forma de dominação. O antissemitismo não guarda relação somente com o povo judeu, mas também com o povo árabe. Aquele soldado, no auge de sua cólera, taxou-nos de antissemitas, atribuindo à palavra o significado de ódio a seu povo. Mesmo eu e meu colega estando sentados em um carro dirigido por um semita, fomos considerados contra essa “raça”. Aliando isso ao fato de que mundo afora muitos acham que o termo “antissemita” é associado ao ódio contra judeus somente, pode-se compreender o poder do controle da informação exercido no contexto da ocupação. Até mesmo o dicionário atribui a especialidade do termo aos judeus.

A evolução do vocábulo, assim como nossa sociedade, tenta apagar a relação entre árabes e judeus. A ocupação apaga significados e distorce realidades. Talvez por isso o soldado tenha medo da mídia que trazemos, porque mostra a realidade que ele não conhece, que ele não aprendeu na escola.

Antissemita é ser contra judeus e o árabe é o inimigo: isso basta.

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Os netos da ocupação

Uma das coisas que mais me impressiona aqui na Cisjordânia é a capacidade de resignação e resistência de um povo. Não sei dizer se é pelo fato de sempre terem tido um poder ocupante (em tempos recentes: Império Turco, Reino Unido, Jordânia e Israel), ou se é decorrência da cultura pastoril, ou mesmo se é fruto dos ensinamentos islâmicos (sim, o islamismo é uma das religiões mais tolerantes e pacifistas), mas as humilhações diárias são tantas que poucos poderiam suportar como eles o fazem.

Na espiral de violência em que todos estão inseridos, creio que os que mais sofrem são as crianças. Com a ocupação em 1967, pode-se dizer que essa geração é neta da ocupação. Não é raro ouvirmos relatos de pais apontando que a pior consequência da violência que sofrem (seja psicológica ou física) é ver que seus filhos presenciam tudo, assistem enquanto os pais são humilhados. Não podemos medir o quanto isso afetará essas crianças.

Em uma visita a um de nossos contatos, o senhor Mahmud, da vila de Awarta, próxima a Yanoun, presenciamos uma cena singela, porém muito interessante. Awarta está próxima do assentamento de Itamar, residência de vários colonos radicais da região. É também nesta vila que está localizada a Tumba de Itamar, local sagrado tanto para muçulmanos quanto para judeus.

Os colonos, duas vezes ao ano, organizam uma grande peregrinação à Tumba, não raro causando problemas para a vila de Awarta. Os incidentes recentes registrados na vila incluem depredações no reservatório de água da vila, ferimentos graves em um garoto causados por explosão de artefatos depositados nos campos ao redor da vila, violação de sepulturas e invasão de domicílio. O exército faz incursões na vila a cada duas ou três semanas para mostrar sua presença.

Ao visitarmos o senhor Mahmud, enquanto conversávamos, seu neto brincava em frente à sua casa. Seu brinquedo era uma arma de plástico que emitia sons de tiros. A criança apontava a arma para quem passasse e disparava alegremente, divertindo-se. Um dos meus colegas perguntou ao nosso contato se as crianças gostavam de ter armas como brinquedos, ao que o senhor Mahmud respondeu:

 

“Os garotos gostam de armas porque eles veem o exército israelense com suas armas. Eles dizem que vão atirar neles e matá-los. Eles acham que assim podem proteger os pais e a família da violência que sofrem.”

 

Aquilo foi realmente significante, ver a criança brincando e pensar em que tipo de adulto ela se tornará. O que será dessa geração que sofre as consequências perversas da ocupação.

Ao continuarmos nossa conversa, porém, uma surpresa. O menino começa a lançar seu brinquedo ao chão e quebrá-lo. Desviei meu olhar da conversa e fiquei assistindo enquanto ele batia e se debatia com aquela arma de brinquedo, tentando quebrá-la o quanto pudesse. Seu avô não tentou impedi-lo.

 

 

Não sei o porquê de ele ter quebrado seu brinquedo, pois parecia muito alegre momentos antes “atirando” em quem passava. Talvez ele tenha entendido que atirar nos outros é chato e não traz solução para a violência que sofre, ou talvez ele tenha percebido que usar as mesmas armas que seus opressores usam não trará o fim da ocupação. Depois de se dar por satisfeito com a arma, recorreu à boneca da irmã que estava deixada de lado ali perto.

No fim, até mesmo o neto do senhor Mahmud compreendeu que não será com armas que se porá fim à ocupação, mas sim cuidando e educando as crianças, para que elas carreguem a esperança da reconciliação e da paz. Mesmo com todo o sofrimento e humilhação, ainda há esperança para a próxima geração.

Espero que as crianças não precisem de armas para se defender. Espero as crianças façam como o menino de Awarta.

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